Diferenças entre Etanol e Metanol

Por: Vitor Hugo Publicado:
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Em meados de 2025, surgiu casos de intoxicação de metanol devido à adulteração ou falhas na produção de bebidas alcoólicas, mas você sabe a diferente entre etanol e metanol?

copo com uma bebida e gelo dentro
Foto: Emerson Vieira via Unsplash
Resumo
  • Etanol e Metanol são classificados como álcool
  • São bem semelhantes: líquido, incolor e aroma parecido
  • Etanol tem dois carbonos na molécula, enquanto metanol tem apenas um carbono
  • Ambos são tóxicos, sendo o metanol mais tóxico
  • Quem causa os danos no corpo são os subprodutos da metabolização do metanol: ácido fórmico e formiato (íon)
  • Não há testes caseiros confiáveis para fazer a detecção do metanol

Etanol x Metanol

Caso nunca tenha ouvido falar do metanol, ele é um tipo de álcool também assim como… o etanol. Mas como assim?

Ambos são classificados como álcool, uma vez que álcool é uma função orgânica. Podemos dizer que é um sistema classificar substancias semelhantes na estrutura e que participam das mesmas reações químicas.

comparativo entre as estruturas do etanol e do metanol

No caso do álcool, a parte importante na estrutura é um grupo hidroxila, traduzindo: oxigênio e hidrogênio ligados (-OH). 

Agora, pensando nas moléculas desses dois alcoóis:

  • Etanol: vou chamar de álcool comum, tem dois carbonos na moléculas
  • Metanol: tem um carbono na molécula, podemos dizer que é um álcool mais simples

Suas características (organolépticas), digamos visuais, são parecidas: líquidos, incolores e aroma parecido. Algumas fontes indicam que o metanol tem aroma semelhante ao etanol.

Os dois são tóxicos para o corpo, até mesmo o álcool comum presente nas bebidas alcoólicas. Em 2023, a Organização Mundial da Saúde publicou que não existe quantidade segura de consumo para a nossa saúde.

Aquela velha história de que uma taça de vinho já caiu por terra, os efeitos nocivos do álcool são mais prejudiciais do que os possíveis benefícios que o vinho poderia ter.

Metabolismo do etanol e metanol

Dito isso, metanol é pior que etanol. Vamos por partes!

Quando bebida alcoólica (e consequentemente, álcool) é ingerido, esse álcool precisa ser eliminado e o processo é feito (em boa parte) pelo fígado.

 O processo de metabolização é bem complexo, para deixar mais simples irei focar em duas partes principais.

subprodutos da metabolização do etanol e metanol

O álcool passa por duas principais transformações:

  1. Vira acetaldeído pela ação da enzima Álcool Desidrogenase (ADH), que é mais tóxico que o álcool em si, e também precisa ser eliminado. Segue…
  2. Vira ácido acético / acetato (íon) que é praticamente inofensivo, é a mesma substância presente no vinagre, por exemplo. O processo pode continuar e virar Acetilcoenzima A.

O metanol é mais tenso, ele passa mesmo processo no fígado. Mas o que é produzido é um pouco diferente:

  1. Vira formaldeído (literalmente formol) que também é mais tóxico e precisa ser eliminado
  2. Depois é transformado em ácido fórmico / formiato ou metanoato (íons) que realmente causam dos danos no corpo

Danos no corpo

ambulância em frente a um letreiro escrito emergencia em inglês
Foto: Luis Sánchez via Unsplash

Tecnicamente, não é o álcool ou metanol em si, diretamente, que causam os problemas. Mas os subprodutos deles.

No caso do metanol, o ácido fórmico (e a sua forma ionizada como formiato) altera processos importantes na mitocôndria — lembra dela? — na produção de energia e pode levar a uma falta de oxigênio dentro da célula (chamamos de hipóxia). E assim, as células podem começar a morrer por falta de energia (ATP) e oxigênio.

Além disso, por ser um ácido pode levar a um quadro de acidose metabólica: altera o equilíbrio ácido-base do sangue. Tira o corpo da famosa homeostasia que faz o organismo funcionar direito.

Por isso quando alguém fala que tal produto vai acidificar ou deixar básico o sangue é o mais puro suco de cilada. Se mexer nesse equilíbrio dá muito, mas muito ruim.

Sintomas da intoxicação por metanol

Os principais sintomas são parecidos com a do álcool comum, por isso fechar o diagnóstico precoce é desafiador. Ou seja, temos:

  • Depressão do sistema nervoso central: aquela letargia de estar embriagado, sabe?
  • Dor de cabeça, tontura, náusea, falta de coordenação e confusão.
  • Visão turva, fotofobia, visão de tempestade de neve ou perda completa da visão
  • Acidose e hemorragias

Há relatos na literatura que quantidades baixas de metanol, cerca de 4 mL, já seriam suficiente para ter perda de visão completa, por exemplo.

Mas por que metanol?

ponto de interrogação em neon vermelho em uma parede
Foto: Simone Secci via Unsplash

Daí vem a pergunta: por que usaram metanol para adulterar bebidas?

A primeira é falta de noção, de caráter mesmo. Sejamos sinceros. Já a outra é capitalismo: dinheiro.

Metanol é mais barato que etanol. Ambos podem ser usados como combustível, solvente e afins, logo, é fácil de ser encontrado. Numa pesquisa rápida, o litro do metanol gira em torno de r$13, já o etanol é mais que o dobro.

Agora, se a outra hipótese: falhas na produção de bebidas alcoólicas destiladas. De modo geral, metanol é produzido no processo de fermentação para a produção do álcool nessas bebidas. O metanol é obtido via pectina presente nas frutas e plantas usadas no processo.

Se a fermentação não é bem controlada, isso pode acontecer. E se o processo de destilação também não for feito de maneira rigorosa, na hora de separar as frações dessa destilação, o metanol pode ficar com um teor maior que o ideal e/ou permitido.

Por exemplo, na cachaça a parte chamada de cabeça é a primeira fração destilada do alambique e representa cerca de 1-2% do volume da bebida produzida e tem a presença de metanol. Mas pela legislação, o limite máximo de metanol permitido é 0,2 mL por 100 mL (é bem baixo).

Testes caseiros?

substâncias fluorescentes dentro de vidrarias de laboratório
Foto: Herry Sutanto via Unsplash

Por enquanto, ainda não temos testes rápidos e confiáveis em escala para saber a bebida alcoólica tem metanol ou não. Há testes de laboratório de utilizam equipamentos específicos para conseguir fazer essa análise.

Já apareceu algumas pessoas induzindo alguns testes “caseiros“, mas que usam reagentes químicos fortes e perigosos que não valem o risco.

Então, por agora, como estamos no surto desses casos de intoxicação, a saída mais segura é evitar o consumo de bebidas alcoólicas, principalmente as destiladas.

Setor de alimentos e bebidas

placa neon escrito alcohol you later
Foto: Aniestla via Unsplash

Por isso que eu sempre falo: trabalhar com alimentação você precisa ser bem certinho, seguir todos os controles e protocolos. Você pode afetar diretamente a saúde, e no caso, a vida dos seus clientes.

Comprar as bebidas de locais de boa procedência, oficiais e com nota fiscal. Dar aquela desconfiada se a oferta for boa demais.

Já para os consumidores: fica atento as garrafas, aos selos e comprar de locais de confiança. E também desconfiar de preços muito baixos. Mas no momento, a opção mais segura é evitar o consumo.

Colagem de uma jarra estilizado com moedas
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Bibliografia

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Vitor Hugo

Mestre em Ciência de Alimento, Farmacêutico-Bioquímico e Gastrônomo. Atua como Produtor Gastronômico e Comunicador de Ciência. Criou o PratoFundo para ser o portfólio de gastronomia e ciência.

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