Resenha: “Em Defesa da Comida” de Michael Pollan

Última atualização: 2 de janeiro de 2016

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Resenha: "Em Defesa da Comida" de Michael Pollan

Confesso que comecei a ler a publicação com certa resistência devido a outro livro do autor, O Dilema do Onívoro, num determinado momento ele descreve a vida sexual do milho. É milho: Zea mays L. ssp.. Aquilo foi demais para mim, larguei o livro. Mas não é desse que irei falar.

Em Defesa da Comida: um manifesto.

A base para a criação do livro tem origem no ensaio “Unhappy Meals” que Michael Pollan escreveu para a The New York Times Magazine em meados de 2007.

O que norteia as mais de 200 páginas é o nutricionismo e a ciência reducionista, que seriam a base da atual doutrinação na alimentação. Em que o foco é o nutriente em si, isolado, a importância deixa de ser o alimento como todo dando foco apenas a uma pequena porção dele.

Aponta o dedo e faz duras críticas em certos profissionais: nutricionistas, médicos e cientistas em geral. Além da indústria da alimentação. Dizendo que comer ficou tão complicado e complexo que é necessário alguém ditar o que fazer, além de ser preciso que alguém escreva sobre comida de verdade (no caso, ele próprio). E mesmo assim, com toda ajuda paradoxalmente os EUA vem se tornando um país cada vez mais obeso.

Paradoxalmente os EUA vem se tornando um país cada vez mais obeso.

Mostra com pesquisas e evidências que a dieta ocidental (leia-se americana, de modo geral) não é a mais saudável e seria um dos motivos pelos atuais índice de obesidade e problemas de saúde dos americanos.

Como o nutricionismo foca apenas no nutriente, a indústria com seus produtos altamente processados elegem um nutriente mágico e entopem-os com ele. Os mercados com seus corredores infinitos abarrotados de produtos de qualidade questionável, cheios de xarope de milho com alto teor de frutose (esse termo é repetido a exaustão) e baratos. Mas nada saudáveis. Come-se mais, alimentos pobres e hiper calóricos.

Tece comentários nada simpáticos para muitos produtos com aqueles selos de aprovação por determinada associação. Informa que a indústria consegue o tal selo mediante pagamento de uma taxa! É quase lobby, não? Confesso que aqui eu fui bem inocente, não havia vislumbrado que o processo era assim. E me questionei: se lá nos EUA é assim, como será aqui no Brasil? Estou me coçando para ir atrás de algumas associações e perguntar.

O texto ainda aborda a questão da aurea dos produtos orgânicos que muitos consumidores atrelam a “saúde”, como se fosse sinônimo. O exemplo dado é: para o seu corpo não irá fazer diferença nenhuma se o xarope de milho com alto teor de frutose (olha ele aqui de novo!) é orgânico. E do ponto de vista da saúde o que adianta aquele biscoito super processado ou o refrigerante serem orgânicos?, pondera. Muito mais do que ser orgânico é preciso ser local, sazonal e comprado do produtor.

Reforça que a busca pelo elemento mágico nos alimentos, o dito fator X, deve ser descartada. É muito mais importante o conjunto da obra do que partes isoladas. E olhar com certo ceticismo para alimentos não tradicionais por não se conhecer direito quais os seus reais benefícios e principalmente os seus malefícios.

Um ponto que achei bem fora da nossa realidade, sugere a compra de um freezer para estocar os alimentos comprados na estação. Tudo bem que é para quem tenha espaço e, principalmente, dinheiro. Para algumas pessoas isso pode ser real, mas creio que para a grande maioria, não.

hara hachi bu: comer até estar 80% saciado

Além de comer comida, de verdade, é não abusar. Ou seja, não comer em excesso. Mostra o comportamento dos americanos e franceses. Os primeiros só param de comer quando a comida acaba (do prato, do pacote…), enquanto o segundo estão saciados. Isso que os franceses comem menos, mas demoram mais tempo na refeição (segundo o autor). Comenta sobre o princípio do povo de Okinawa (Japão) chamado hara hachi bu: comer até estar 80% saciado. Faço um gancho com Como Emagreci 30kg.

É um discurso honesto, verdadeiro e sincero em prol da comida e por que não, das pessoas. Se concordo inteiramente com ele? Oh, não. Mas isso não significa que seja descartável. Entretanto existe um ponto que precisa ser bem compreendido: o manifesto mostra basicamente a realidade dos EUA. E aí que mora o perigo.

O manifesto mostra basicamente a realidade dos EUA

Discernimento é a palavra. Quero dizer, boa parte do que é indicado ou recomendado está inserido na realidade norte-americana que é diferente dessa parte dos trópicos em que estamos. Assim, usar o mesmo discurso — literalmente — aqui é um erro crasso por não prestar atenção na cultura local. Isso que nem entramos no quesito sócio-econômico.

Infelizmente, é perceptível que muitas pessoas tomam as ideias de Pollan como verdade absoluta que acaba sendo deturpada, perde coerência e utilidade real. Acredito que que seja mais uma fonte de inspiração do que algo mandatório.

Tenho para mim uma quase certeza: se Michael Pollan fosse brasileiro, ele não teria seu trabalho editado. Dentro do seu manifesto, Pollan não fica cheio de dedos, aponta e ainda cutuca a ferida. Ou seja, faz aquilo que o jornalismo deveria fazer. Promove o pensamento e a crítica.

Ficha Técnica

Título: Em defesa da comida: um manifesto
Autor: Michael Pollan
Tradução: Adalgisa Campos da Silva
Editora: Intrínseca
Páginas: 275

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8 Comentários (Deixe o seu!)
  1. Eu li esse mesmo livro e iniciei com certa resistência e principalmente durante o começo do livro discordei em inúmeros pontos, mas a partir de certo ponto achei a leitura muito interessante e recomendaria pra muita gente ler, mas como vc disse, nao levar como verdade absoluta! Ler de mente aberta!

    Aindo acho q fez bem o papel de jornalista de cutucar a ferida, mas que fala muitas vezes com uma propriedade q enquanto jornalista ele não tem, tanto quanto um profissional da área…

    Gostei mto do post! e fazia um tempo q procurava uma resenha do livro!

    Aaaaaah… recomendo pra vc assistir “The food Revolution”, de Jamie Oliver! não achei em português, mas dá até pra se virar nos 30 com o inglês…
    Abç!

  2. Olá, Vitor!
    Pela sua resenha as abordagens são muitíssimo semelhantes às feitas no Dilema do Onívoro (que depois da descrição do sexo do milho se torna, ou volta a ser, na minha opinião, uma leitura excelente e obrigatória).
    Concordo que temos que ter discernimento, mas acho também que temos que lembrar que por aqui seguimos cada vez mais o padrão norte-americano e que a alimentação da população de baixa renda em ascensão vem migrando com força para os industrializados. As perguntas que vêm martelando a cabeça são: será que nossas fazendas criam gado e produzem vegetais com a mesma quantidade de químicos e confinamento que as deles? E como será a nossa regulamentação para produtos orgânicos? Porque a deles parece ter sofrido forte lobby da indústria e apresenta brechas como “acesso ao pasto” para o gado, ou “acesso a áreas livres” pras galinhas; o que na prática significa que não são criados soltos mas que, assim como prisioneiros, tem direito a um “banho de sol”.
    Bom, já falei demais. hhehehe
    Beijo e obrigada por compartilhar a resenha!

    1. Também pensei nesse aspecto que os industriais são mais consumidos pelas classes menos favorecidas, porém, de um maneira geral lá nos EUA é ainda tudo mais barato (o que Pollan) frisa bem. Vendo um programa gringo outra vez, tinha uma propaganda do McNuggets(?) cerca de 100 unidades por $1, percebe?

      Já aqui no Brasil, de modo geral, é caro de certa maneira. Fastfood (hamburguer e tal) gira em torno de que R$10-15 para se comer todo dia, por exemplo. Enquanto, um self-service com arroz e feijão sai mais barato. De um modo bem superficial, ainda é mais vantajoso comer o “nosso” básico (arroz, feijão, salada…). É nesses pontos que muita coisa se modifica. Está mudando? Claro. Mas ainda estamos longe do american life style.

      Com certeza existe o padrão de confinamento do gado, isso é inegável. Ainda tenho para mim que os nossos bois comem mais capim por um e outro motivo. Orgânicos e cia, tenho para mim que só compensa comprar na feira do produtor ou nas associações (como a do Parque Água Branca em SP), em mercado é pedir para ser enganado.

      Vou dar mais uma chance do sequiço (sic) do milho, vai voltar pra fila de leitura! :)

  3. Eu concordo que comer está ficando uma tarefa demasiadamente complicada, muito em virtude da enorme quantidade de informações, as vezes contraditórias que são passadas a torto e a direito. Um exemplo: Cerveja sempre fez mal, dá barriga e não sei mais o que, hoje já dizem que ela previne um milhão de coisas. As vezes eu penso que tudo é tempestade em copo d´agua e que simplesmente deveríamos ter o alimento como comustível. “saco vazio não para em pé”

    1. É justamente esse o ponto, João. A industria observa o alimento como um simples combustível e na minha visão isso é errado. Comer, se alimentar vai mais além do que isso. É um momento de prazer. Se for encarado como mero combustível seria mais fácil fazer uma solução com todos os nutrientes necessários para a manutenção do corpo humano, igual a gororoba branca que aparece no filme Matrix (no primeiro)!

  4. Sem Avatar Lou:

    Bem interessante esse livro, se bem que nunca pensaria em lê-lo se o visse na livraria, mas isso é bem comum, afinal.
    Eu achei que quando viesse pra uma cidade grande poderia comer coisas bem diferentes, falando de produtos naturais mesmo, que não se cultivava na minha ciade pequena… Mas como eu estava enganada! Aqui é muito mais difícil de se encontrar frutas e verduras frescas e de boa qualidade, ou com grande variedade, e você acaba comendo só as mesmas coisas todos os dias. Ainda mais se tiver que pegar ônibus, e ficar 1 hora nele até chegar no centro da cidade pra encontrar alho-poró, por exemplo. Isso que estamos no Brasil, nem posso imaginar o que americanos tem que fazer pra conseguir isso. E olhando pra tantos prédios residenciais, e casas minúsculas fica difícil imaginar onde é que as hortas se escondem.
    Esses tempos falei com um homem que morou nos EUA por alguns anos, e aí comentei com ele sobre ter ouvido falar(visto no Globo Repórter XD), que a comida lá era bem cara. Aí ele me disse: “Que nada! Eu saia do trabalho e ia pro McDonalds todos os dias, lá é barato!” Aí fiquei pensando que temos visões diferentes do que é comida mesmo, e que se todos lá pensam de forma semelhante a obesidade está bem explicada.

    1. Não sei qual cidade você fala, mas pegando São Paulo como exemplo, lá é possível. Lá tem feiras, associação dos produtores orgânicos, tem empresas que fazem cestas de legumes e tal. Opção não falta. Comer direito, de modo sustentável e afins é uma mudança de hábitos.

      Nos EUA, por incrível que pareça é mais fácil. Farmers market são comuns, em algumas redes de mercados praticamente tudo é orgânico com preço razoável (tudo bem que não acho lá muito legal comprar esse tipo de produto em mercado). Exatamente, comida de gosto duvidoso é super barato, vi cerca vez uma propagada de 99 nuggets por $1 dolar.

  5. Sem Avatar Sâmara Breves:

    Olá Vitor!!!
    Eu acredito na função dos alimentos, acredito que se alimentar deve ir além de matar a fome. Por isso não sou a favor da MAIORIA dos produtos industrializados lançados no mercado, com a ideia de oferecer enriquecimento nutricional (o que também pode ser paradoxal) e praticidade de preparo.
    Tenho certeza que alimento pode ser usado p/ remédio. Assim como existem alimentos danosos qdo consumidos de forma errada ou em excesso, entupindo o organismo de toxinas e radiais livres e aumentando as intolerâncias alimentares e alergias, também existem alimentos que podem exercer funções nutritivas e preventivas quando consumidos de maneira funcional. Cada vez mais, pessoas buscam por alimentação de maneira apenas a saciar e não por seus beneficios nutricinais, e o resultado disso estamos vendo no excesso de peso da população. Concordo que não podemos descartar o prazer de comer, isso é inegável, mas hoje come-se muito por compulsão, ansiedade, desespero em comer( o que ultrapassa o prazer). Eu acredito mesmo na ação dos alimentos mais naturais, com suas funções nutritivas, preventivas, enzimáticas e também saciadoras.

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